Um dia Letícia saiu escondida e foi procurar um médico psiquiatra para ajudá-la com o marido, pois à cada dia piorava. Contou tudo que se passava com ele, como ele era, tudo que havia acontecido e como estava agora. O doutor disse que seria necessário vê-lo para diagnosticar melhor, mas que aparentemente poderia se tratar de esquizofrenia.
- A senhora sabe alguma coisa sobre essa doença? – perguntou o Doutor
- Na verdade não, apesar de ler muito, nunca me interessei por essas coisas, além de nunca imaginar que passaria por isso. Única coisa que sei é que costumam chamar de loucura.
- Bem Dona Letícia, a pessoa que sofre desta doença tem ações e atitudes que o intitulam desta forma, pois criam personagens e situações que para nós não fazem o menor sentido, mas para eles faz todo. Essas situações, na maioria das vezes, o protegem de seus medos e traumas, o encobrindo de toda a insegurança existente em seu ser. Essas pessoas chegam em alguns momentos ter visões e ouvir vezes, como se fossem reais. Os personagens e situações criadas no dia-a-dia justificam suas ações, reações e atitudes. E em alguns casos se tornam perigosas, pois ficam agressivas e manipulam situações que nunca conseguimos supor o motivo, ou em outros casos a pessoa fica muito depressiva. Mas o caso do marido da senhora, fica difícil de diagnosticar precisamente, justamente por ele não permitir a aproximação, vou apenas dar uma medicação para deixá-lo menos agressivo. Quem sabe ele ficando mais frágil eu consiga me aproximar e analisar melhor o caso.
Estavam sentados na varanda e Miguel lustrava sua espingarda mirando-a hora para Letícia, hora para João Vitor. Ela tentando agir com naturalidade, questionou-o quais seriam suas intenções com aquela espingarda, já que a cidade toda sabia que ele era o “Rei” e que não poderiam se aproximar.
- É que a “voz” diz que tenho que aguardar o momento certo para tirar a sua vida e a do moleque! – disse Miguel, com a maior calma do mundo.
- Mas que voz é essa que você escuta?
- Ele é igual a mim, meu irmão gêmeo, diz que fui muito bonzinho enquanto estava casado com você e que só pode se aproximar de mim quando me afastei de você, aí ele me mostrou tudo que poderia ter e ser. Disse que ficaremos mais fortes quando vocês se forem. Mas por enquanto, pode ficar tranqüila que não chegou a hora não! Só estou treinando.
Letícia se corroia de medo por dentro, mas não demonstrava ao marido, pois ele confessava que se realizava cada vez que ela demonstrava esse medo a ele. O remédio realmente havia ajudado muito com relação à agressividade, e além do mais fazia com que ele dormisse mais tempo durante o dia. E nesse tempo ela conseguia ajeitar as coisas da fazenda.
O medo que existia dentro dela era tão grande quanto a força de ajudá-lo a se curar e aos pouco foi colocando doses maiores do remédio na comida e bebida dele. O remédio começou a deixá-lo totalmente zonzo e ele dormia a maior parte do tempo, que era de grande alívio para Letícia, que conseguia cumprir os afazeres com mais facilidade.
Até que no preparo de um dos pratos, Miguel apareceu na porta e viu que a mulher colocava “coisas” em seu prato, foi para cima dela e a pegou fortemente arrastando-a pelos cabelos até o lado externo da casa.
Justamente aquele dia as estrelas e a lua iluminavam o céu, deixando a noite clara como o dia. O que permitiu que Letícia visse o fogo nos olhos de Miguel. Ele havia a espancado muito e a amarrado a um toco de árvore. Olhando firmemente nos olhos dela, sorrindo porque adorava vê-la sofrer.
- É minha “esposa” – disse com ironia – já fazia tempo que meu gêmeo disse que estava na hora, mas parecia que minha força e determinação estavam sumindo, o que me impedia de fazer o que precisava. Agora entendo... você estava me enfeitiçando, sua bruxa maldita!!!! Não devia ter te contado os nossos planos, meu e do meu irmão. Ele brigou muito comigo por causa disso, me pressionava, mas o seu feitiço me segurava. Ah! Agora você vai me pagar por atrapalhar meus planos.
- Miguel, pelo amor ao nosso Deus, você está doente e precisa se cuidar, urgentemente, por mim, por nosso filho, por você. Não o enfeiticei, era remédio para que começasse a se curar...
Um tapa fez com que ela se calasse – Cala a boca sua bruxa – disse Miguel. – Só que agora você não vai, simplesmente, morrer sem dor, sem sofrimento. Até que Letícia disse!
- Não entendo porque está assim... você não tem motivo! A única lição que seu pai verdadeiro lhe deu foi para que não deixasse a ganância pelo dinheiro consumir seu coração, e o que fez?!? Deixou que o poder dele o dominasse, fazendo com que perdesse o bem mais precioso que teve até então, que é o amor, o carinho, a alegria e felicidade...
- Cala-se!!!! Já disse!!! Você me enfeitiçou e precisa morrer – disse isso jogando álcool sobre Letícia.
A medicação que o acalmara um pouco ajudava em alguns momentos de lucidez, e sua mente conturbada começou a ter relances das lembranças boas dos momentos que tinham enquanto estavam juntos: o crescimento financeiro com dignidade e honestidade, a união da família, os empregados fiéis... Acendeu o fósforo... e como de súbito, como se uma luz o atingisse, caiu-se de joelhos aos prantos aos pés da esposa, pedindo perdão pelos erros e por tudo que tinha feito até então.
De repente, o fósforo aceso caiu de sua mão e uma faísca atingiu Letícia, que estava encharcada de álcool.
Enquanto Letícia queimava viva, o desespero de Miguel era incontrolável, em tentar de todas as maneiras socorrer a adorada esposa, mas em vão..., a esposa sendo queimada viva... “meu Deus o que está acontecendo? O que fiz?” Pensou Miguel, se dando conta da terrível tragédia que cometera e ao olhar envolta percebeu que seu próprio filho estava olhando fixamente, atônito o que acontecia. O casal que fora com Letícia, estava um pouco longe, chegando no local sem tempo de evitar a morte da patroa. Correu em direção do menino para protegê-lo e evitar que a tragédia fosse maior. Miguel passou por eles, entrando lentamente na casa pegou sua espingarda, sentou em frente do fogo que se fazia sobre o corpo de Letícia, enfiou o cano na boca e atirou...
O casal, Ana e Mário, seguraram cada um em uma mão do menino, viraram de costas e seguiram no sentido da lua, sem olharem para trás.
- A senhora sabe alguma coisa sobre essa doença? – perguntou o Doutor
- Na verdade não, apesar de ler muito, nunca me interessei por essas coisas, além de nunca imaginar que passaria por isso. Única coisa que sei é que costumam chamar de loucura.
- Bem Dona Letícia, a pessoa que sofre desta doença tem ações e atitudes que o intitulam desta forma, pois criam personagens e situações que para nós não fazem o menor sentido, mas para eles faz todo. Essas situações, na maioria das vezes, o protegem de seus medos e traumas, o encobrindo de toda a insegurança existente em seu ser. Essas pessoas chegam em alguns momentos ter visões e ouvir vezes, como se fossem reais. Os personagens e situações criadas no dia-a-dia justificam suas ações, reações e atitudes. E em alguns casos se tornam perigosas, pois ficam agressivas e manipulam situações que nunca conseguimos supor o motivo, ou em outros casos a pessoa fica muito depressiva. Mas o caso do marido da senhora, fica difícil de diagnosticar precisamente, justamente por ele não permitir a aproximação, vou apenas dar uma medicação para deixá-lo menos agressivo. Quem sabe ele ficando mais frágil eu consiga me aproximar e analisar melhor o caso.
Estavam sentados na varanda e Miguel lustrava sua espingarda mirando-a hora para Letícia, hora para João Vitor. Ela tentando agir com naturalidade, questionou-o quais seriam suas intenções com aquela espingarda, já que a cidade toda sabia que ele era o “Rei” e que não poderiam se aproximar.
- É que a “voz” diz que tenho que aguardar o momento certo para tirar a sua vida e a do moleque! – disse Miguel, com a maior calma do mundo.
- Mas que voz é essa que você escuta?
- Ele é igual a mim, meu irmão gêmeo, diz que fui muito bonzinho enquanto estava casado com você e que só pode se aproximar de mim quando me afastei de você, aí ele me mostrou tudo que poderia ter e ser. Disse que ficaremos mais fortes quando vocês se forem. Mas por enquanto, pode ficar tranqüila que não chegou a hora não! Só estou treinando.
Letícia se corroia de medo por dentro, mas não demonstrava ao marido, pois ele confessava que se realizava cada vez que ela demonstrava esse medo a ele. O remédio realmente havia ajudado muito com relação à agressividade, e além do mais fazia com que ele dormisse mais tempo durante o dia. E nesse tempo ela conseguia ajeitar as coisas da fazenda.
O medo que existia dentro dela era tão grande quanto a força de ajudá-lo a se curar e aos pouco foi colocando doses maiores do remédio na comida e bebida dele. O remédio começou a deixá-lo totalmente zonzo e ele dormia a maior parte do tempo, que era de grande alívio para Letícia, que conseguia cumprir os afazeres com mais facilidade.
Até que no preparo de um dos pratos, Miguel apareceu na porta e viu que a mulher colocava “coisas” em seu prato, foi para cima dela e a pegou fortemente arrastando-a pelos cabelos até o lado externo da casa.
Justamente aquele dia as estrelas e a lua iluminavam o céu, deixando a noite clara como o dia. O que permitiu que Letícia visse o fogo nos olhos de Miguel. Ele havia a espancado muito e a amarrado a um toco de árvore. Olhando firmemente nos olhos dela, sorrindo porque adorava vê-la sofrer.
- É minha “esposa” – disse com ironia – já fazia tempo que meu gêmeo disse que estava na hora, mas parecia que minha força e determinação estavam sumindo, o que me impedia de fazer o que precisava. Agora entendo... você estava me enfeitiçando, sua bruxa maldita!!!! Não devia ter te contado os nossos planos, meu e do meu irmão. Ele brigou muito comigo por causa disso, me pressionava, mas o seu feitiço me segurava. Ah! Agora você vai me pagar por atrapalhar meus planos.
- Miguel, pelo amor ao nosso Deus, você está doente e precisa se cuidar, urgentemente, por mim, por nosso filho, por você. Não o enfeiticei, era remédio para que começasse a se curar...
Um tapa fez com que ela se calasse – Cala a boca sua bruxa – disse Miguel. – Só que agora você não vai, simplesmente, morrer sem dor, sem sofrimento. Até que Letícia disse!
- Não entendo porque está assim... você não tem motivo! A única lição que seu pai verdadeiro lhe deu foi para que não deixasse a ganância pelo dinheiro consumir seu coração, e o que fez?!? Deixou que o poder dele o dominasse, fazendo com que perdesse o bem mais precioso que teve até então, que é o amor, o carinho, a alegria e felicidade...
- Cala-se!!!! Já disse!!! Você me enfeitiçou e precisa morrer – disse isso jogando álcool sobre Letícia.
A medicação que o acalmara um pouco ajudava em alguns momentos de lucidez, e sua mente conturbada começou a ter relances das lembranças boas dos momentos que tinham enquanto estavam juntos: o crescimento financeiro com dignidade e honestidade, a união da família, os empregados fiéis... Acendeu o fósforo... e como de súbito, como se uma luz o atingisse, caiu-se de joelhos aos prantos aos pés da esposa, pedindo perdão pelos erros e por tudo que tinha feito até então.
De repente, o fósforo aceso caiu de sua mão e uma faísca atingiu Letícia, que estava encharcada de álcool.
Enquanto Letícia queimava viva, o desespero de Miguel era incontrolável, em tentar de todas as maneiras socorrer a adorada esposa, mas em vão..., a esposa sendo queimada viva... “meu Deus o que está acontecendo? O que fiz?” Pensou Miguel, se dando conta da terrível tragédia que cometera e ao olhar envolta percebeu que seu próprio filho estava olhando fixamente, atônito o que acontecia. O casal que fora com Letícia, estava um pouco longe, chegando no local sem tempo de evitar a morte da patroa. Correu em direção do menino para protegê-lo e evitar que a tragédia fosse maior. Miguel passou por eles, entrando lentamente na casa pegou sua espingarda, sentou em frente do fogo que se fazia sobre o corpo de Letícia, enfiou o cano na boca e atirou...
O casal, Ana e Mário, seguraram cada um em uma mão do menino, viraram de costas e seguiram no sentido da lua, sem olharem para trás.
O Flávia.
ResponderExcluirQue linda estória, prendeu muito minha atenção e só consegui sair depois de ter terminado a leitura, acho isso um ponto altamente favprável, conseguir prender o leitor.
Parabens pela estória e pelo novo bebê. Beijos Leila