quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Terra Insana - Capítulo III

Quando Miguel chegou às terras novas sentia muita tristeza por Letícia e João Vitor não tê-lo acompanhado e supriu essa ausência com o trabalho e os negócios que iria realizar.
Na sua ausência aconteceram várias coisas como: animais desaparecidos, o cultivo das plantações que não foram feitas, funcionários que foram embora sem dar satisfação, roubos diversos, etc, que fez com que percebesse que não podia confiar em ninguém naquele lugar e que ali valia realmente a lei do mais forte. E ele era o mais forte e o mais poderoso.
Passava noites em claro preso em seus pensamentos, como se a sua consciência e a sua inconsciência ficassem em constante discussão do que fazer e do que acreditar. Começou a conversar consigo mesmo, fazendo perguntas, da qual ele mesmo às respondia.
Miguel tinha muito medo de ser morto por algum empregado da fazenda, de ser roubado na casa principal ou de ser subestimado por todos da redondeza, portanto proibiu a entrada de todos na casa principal, a não ser Sr. Julio, que era o empregado mais antigo da fazenda, e mesmo assim ele não podia tocar em nada e só poderia entrar se acompanhado de Miguel, que andava sempre armado.
A noite ficava de guarda na fazenda vigiando tudo e todos, e quando via algo que julgava ameaçador atirava sem saber o que era. Se percebesse algo que não estava de seu agradado, colocava fogo. Dava ordens seguidas de ameaças e se não fossem cumpridas como queria cumpria suas ameaças da forma mais cruel possível, e ainda dizia a todos que era de exemplo aos demais para que cumprisse suas ordens.
Como todos diziam nas redondezas, “ele não esta no seu juízo perfeito”, mas o que poderiam fazer? Ele não aceitava ajuda de ninguém e nem aproximações de gente desconhecida. E todos do local viviam a sua mercê, sem saber o que seriam deles no dia seguinte.

Letícia sentada na escada da varanda com João Vitor, contava histórias infantis. Ela estava tentando levar uma vida normal ao lado do filho, contando com a ajuda dos empregados, mas não conseguia disfarçar a falta que sentia de Miguel. Parecia que não existia mais brisa, o sol não brilhava mais e as noites não eram mais claras e estreladas. A alegria não existia mais... mesmo com os esforços dos empregados em tentar fazer um ambiente alegre, soava tudo falso. O que, na verdade, era mesmo. Era como se faltasse uma página fundamental em uma bela história de amor... como se as últimas páginas desse livro tivessem sido perdidas e que nunca mais ninguém saberia o fim de toda aquela felicidade.
Já fazia um ano que Miguel se fora e nunca mais havia dado notícias. Letícia escreveu-lhe diversas cartas e não recebeu nenhuma resposta.
Um dia estava tentando resolver um problema das mortes misteriosas dos animais de sua fazenda, avistou um senhor se aproximando lentamente, com uma aparência cansada e suja. Os empregados se aproximaram dele e o senhor dizia que estava ali por conta própria, pois não sabiam mais o que fazer, e que estava procurando Dona Letícia, porque ela era a última esperança.
- Boa Tarde, Dona Letícia, sou Julio Moreira, empregado do falecido Sr. José Inório, da qual seu marido se tornou herdeiro, e estamos em situações calamitosas lá nas terras e por isso decidimos procurar a senhora para ver se nos ajuda! O marido da senhora, não tá nada bom não. Nunca vi tanta crueldade junta numa pessoa, que antes era do bem. Ele sofre da cabeça Dona, e a gente sofre as conseqüências, sabe???
Letícia sentiu uma dor terrível no peito ao escutar tudo que aquele senhor dizia, lembrou-se do amor que sentia por Miguel, pela família, pelo filho e por tudo que construíram e fizeram enquanto estavam juntos. Decidiu, portanto ir até as novas terras verificar o que estava acontecendo, levando o filho João Vitor e um casal de confiança da fazenda.
Partiram no dia seguinte e realmente era uma dura viagem, assim como Miguel havia dito. A ansiedade pela chegada e a agonia de saber o que se passava estava estampada na face de Letícia.
- Já chegamos Dona Letícia – disse Sr. Julio.
O que a assuntou muito, pois sentiu calafrios ao entrar nas terras e viu os sinais de abandono que o local se encontrava.
Ao chegar na casa, Miguel estava sentado na varanda com uma espingarda na mão e ao vê-los apontou-a ameaçando atirar. E mesmo assustada Letícia continuou a se aproximar, sem esconder o medo que sentia. O marido começou uma risada irônica e cruel, o que a deixou ainda mais assustada.
- O que fazes aqui nas minhas terras, oh mulher, ingrata? Daqui não levará nem um vintém se quer, pois é tudo meu, eu que mando aqui. Sozinho!!!
- Não quero nada, apenas, te ver. Sinto saudades e seu filho também!
Miguel desceu as escadas colocando a espingarda no chão, como se tivesse naquele instante um momento de lucidez, abraçou o filho com verdadeira ternura, elogiando sua beleza e postura. Mas tratando Letícia com desprezo e indiferença.
Ao entrar na casa ela começou a ver o estrago. Um local imundo e nojento, havia até sangue, onde ela não conseguia definir se era de animal ou humano. Pediu ao Sr. Julio que
chamasse a criadagem da casa para que desse um jeito naquilo tudo. Foi quando Sr. Julio pediu que ela sentasse que iria contar tudo que estava se passando no local.
- Pois é Dona Letícia, por isso que trouxemos a senhora para cá, seu marido não ta regulando bem da cabeça não. A criadagem tá indo tudo embora com medo. Não tá restando ninguém, a gente acha que ele já matou um monte de gente e que some com o corpo, não dá nem pra provar, e todo mundo de estranho que se aproxima das terras também some. Tem noite que ele coloca fogo nas coisas, ninguém consegue se aproximar dele. Não deixa ninguém entrar na casa, nem pra limpar, nem pra cozinhar, pra nada, ainda bem que ele não proibiu a entrada da senhora!
Letícia se compadeceu da situação do marido e chorou arrependida de não ter o acompanhado quando partiu. E agora como resolveria isso? Como reverteria a situação? Como ajudaria os empregados daquela terra?
Os dias que se seguiram foram de puro sofrimento para Letícia que teve a casa toda a arrumar e tentar dentro do possível, colocar ordem na situação da fazenda, isso tudo sem que o marido percebesse, pois ele mesmo a proibia de fazer qualquer coisa sem sua ordem. Ela não entendia o porque de tanto desprezo e ódio por ela. O que ela teria feito de grave para ele?

(Continua...)

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